Escolhas
Os olhos, em tons acastanhados, mergulhavam naqueles olhos de tons azuis. Muito tempo eles se observaram de forma silenciosa, onde as palavras não precisavam ser ditas. Os olhos já diziam tudo. Ventos suaves se aproximavam, balançando as vestes daqueles dois jovens. Traziam murmurares com histórias que mil caminhos poderiam tomar diante de cada olhar que porventura se aventurasse naquelas linhas tão obscuras.
Palavras que mudavam suas formas, como fumaças esbranquiçadas que escapavam de pequenas brasas. Não havia o mundo ao redor deles. Não havia gramas, terra, céu ou nuvens. Pareciam envolvidos em trevas e apenas a força que possuíam em suas almas iluminavam aquela pequena área que estavam. Passos lentos, passos que descreveriam um circulo que seguiam enquanto seus olhos se mantinham fixos. Não havia ódio naqueles olhares. Não havia pena ou quaisquer outros sentimentos que pudessem negativar aquele momento. Palavras como traição poderiam surgir na menor das hipóteses, palavras como decepção também. Mas havia algo muito mais forte naquele momento. Um momento em que os olhos castanhos se fechavam, quando as trevas pareciam querer avançar de encontro a quem parecia ter se descuidado. Aquele que possui olhos claros, olhos azuis tão claros que oscilavam para ficarem sombrios, poderia se perguntar o que a pessoa diante de si pretendia fazer. Um sorriso fraco surge nos lábios e novamente os olhos castanhos se abrem. Pareciam tão opacos, como se o brilho daquele olhar tivesse se perdido junto com a esperança que fazia sua luz oscilar.
- Por que fez isso?
Vinha a pergunta em tom grave e baixo de quem parecia não acreditar no que ocorria. E com voz calma em um quase sussurrar a pessoa lhe respondia.
- Por que os olhos nos traem.
Os passos voltavam a ser dados e mesmo que aquela pessoa de olhos castanhos e tão opacos, aparentava não ver de forma tão clara, ela sorria continuando seus passos de forma confiante, diante do olhar intrigado e azulado.
- Mas o coração pode nos trair também!
As trevas pareciam reinar ainda ao redor deles e o vento continuava a rodeá-los, observando-os no que parecia ser uma batalha.
- Sim! O coração também pode nos trair.
O Jovem então parava seus passos, erguendo um pouco mais o rosto de forma inquisidora por ver que, mesmo com a luz que ela possuía parecer oscilar de modo fraco, a jovem parecia confiante demais com a escolha que havia feito.
- O que tem em mente então?
A jovem apenas sorri, estendendo a mão em direção ao jovem que se mantinha afastado alguns passos, parecia tão segura naquele gesto, tão calma em sua visão opaca, que por um momento ele estremeceu, antes mesmo de receber a resposta que ela daria.
- Apenas estar aqui! Para quando você precisar.
Um respirar exasperado parecia tomar conta do jovem rapaz que a olhava em meio àquela escuridão.
- E se eu não quiser?
Ela apenas sorri, ainda com a mão estendida.
- Ainda estarei aqui. Sempre!
Estava sozinha naquele iniciar de feriado. O pequeno resolveu ficar longe, dar o devido descanso para a mãe que parecia tão cansada, mas ele também andava um pouco cansado. Ambos estavam sozinhos há algum tempo. A casa estava silenciosa, mas mesmo assim ele não deixava de escrever para sua irmã, contando a história dos cavaleiros do Sol. Contava a ela também que o Tyr Quentalë parecia ter seus momentos. Momentos em que trazia histórias que para ele eram sombrias, mas que para a mãe, elas a faziam sorrir e seguir a vida adiante. A pequena perguntava se a mãe estava chorando e o pequeno apenas respondia a ela:
- Não tenho visto nossa mãe chorar!
A pequena parecia aliviada escutando aquelas palavras. Via a mãe como alguém tão forte, que não sabia como ficaria se visse sua mãe chorando. O Tyr Quentalë parecia adormecer nos braços de sua dona e ela acariciava a capa do livro.
- Descanse Tyr Quentalë. Os meus filhos estão bem. Assim como eu também estou bem.
Um beijo era selado na capa do livro e a escritora se erguia de sua poltrona. Por um momento ela sorri ao ver as pequenas gotas caírem na janela.
- Seja bem vinda!
Murmura, apreciando a chuva, enquanto pensava nos filhos e no dia que se seguiria.
Premiações



1 Comments:
Miguxa, como sempre seus contos se superam.Este está muito bom mesmo, lindo , lindo, lindo!E que as sombras saiam e venha a luz,mas que sempr,e sempre, seja bem vinda a chuva!
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